Mais de 2/3 dos idosos atendidos no HC-UFTM estão em estado avançado de fragilidade, aponta pesquisa

Você sabia que a fragilidade na velhice não é apenas consequência da idade? Uma pesquisa inédita conduzida no Ambulatório de Geriatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC-UFTM) revelou que 68,4% dos idosos atendidos no serviço, ou seja, mais de dois em cada três, apresentam um quadro avançado de vulnerabilidade física e funcional. O estudo, publicado na Revista Sociedade Científica, mostra que o acúmulo de doenças crônicas é tão ou mais determinante do que o próprio envelhecimento cronológico para o esgotamento das reservas do organismo. A boa notícia? Uma ferramenta simples e rápida, aplicada em poucos minutos, pode identificar precocemente esse risco e transformar a forma como cuidamos de nossos idosos.
O envelhecimento da população brasileira é uma realidade que já chegou aos consultórios, às filas dos hospitais e, principalmente, à vida das famílias. Com mais anos de vida, cresce também a chance de desenvolver doenças que se acumulam e minam a autonomia, e é exatamente esse acúmulo que a pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) colocou sob as lentes.
Liderado pelo pesquisador Mathews Maciel Candido Silva, o estudo avaliou 38 idosos com idade média de 76,8 anos, sendo a maioria mulheres (57,9%), acompanhados no ambulatório de Geriatria do HC-UFTM. Para isso, utilizou-se o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), um questionário desenvolvido no Brasil que avalia, em poucos minutos, oito aspectos essenciais da saúde: idade, autopercepção da saúde, capacidade para atividades diárias, cognição, humor, mobilidade, comunicação e presença de múltiplas doenças. A pontuação final classifica o idoso em baixo, moderado ou alto risco de fragilidade.
O resultado foi alarmante: 68,4% dos participantes estavam na categoria de Alto Risco. A análise estatística revelou que, embora a idade influencie diretamente o quadro, o número de comorbidades, como hipertensão, diabetes, doenças cardíacas e osteoartrose, atua como um fator de risco independente, acelerando o processo de esgotamento funcional. Em outras palavras: um idoso com múltiplas doenças crônicas, ainda que na mesma faixa etária de outro mais saudável, tende a ter um grau de vulnerabilidade significativamente maior.
“A fragilidade não é uma consequência inevitável da idade”, explica o pesquisador Mathews Maciel Candido Silva. “É um estado fisiológico que pode ser identificado e, em muitos casos, modificado. O IVCF-20 nos permite, em poucos minutos, mapear vulnerabilidades que muitas vezes passam despercebidas na consulta tradicional. Com esse diagnóstico precoce, podemos atuar com fisioterapia, suporte nutricional e ajuste de medicamentos antes que o paciente perca a autonomia.”
A síndrome da fragilidade, caracterizada pela redução das reservas do organismo e pela menor capacidade de responder a situações de estresse, como uma infecção ou uma queda, é um dos principais fatores que levam à hospitalização, à institucionalização e até ao óbito em idosos. O que a pesquisa do HC-UFTM reforça é que esse processo não é silencioso: ele pode ser detectado e, mais importante, combatido com intervenções precoces. A suplementação de creatina para preservar a massa muscular, o tratamento da deficiência de vitamina D (associada a quadros demenciais) e a fisioterapia preventiva são exemplos de condutas que podem ser planejadas a partir desse rastreio.
O estudo também destaca a importância de ferramentas como o IVCF-20 em hospitais de alta complexidade, como o HC-UFTM. Nesses serviços, onde os pacientes chegam com quadros já avançados, a ausência de uma triagem funcional padronizada pode levar a intervenções fragmentadas e até a complicações evitáveis. A adoção rotineira do questionário transcende a classificação: ela permite que a equipe de saúde, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e nutricionistas, trabalhe de forma integrada, otimizando recursos e, principalmente, prevenindo a perda da autonomia.
Desafios e prevenção
A pesquisa confirma a aplicabilidade ágil e eficaz do IVCF-20 na rotina de um ambulatório terciário, mas também expõe uma realidade desafiadora: a alta prevalência de idosos vulneráveis. Mais do que classificar, o instrumento orienta a individualização do cuidado e permite que a equipe multiprofissional atue preventivamente. A adoção sistemática desse rastreio é, portanto, um passo estratégico para transformar a assistência, do modelo reativo para o preventivo, centrado na preservação da autonomia e na qualidade de vida da população idosa.
Autores: Mathews Maciel Candido Silva, Guilherme Rocha Pardi, Henry Sequin Lopes, Leopoldo Henrique Dias Resende Varas Campillay, Gualberto Ruas.
Instituição vinculada: Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Uberaba, Brasil.
O artigo foi publicado na Revista Sociedade Científica, um periódico multidisciplinar de acesso aberto comprometido com a divulgação científica e com a ponte entre a pesquisa acadêmica e a sociedade.
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